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Livro revela novos detalhes de como a USAG ocultou queixas contra Larry Nassar

Documentos mostram que Steve Penny, ex-presidente da USA Gymnastics, falhou ao relatar os crimes de Nassar para impedir "publicidade negativa" do caso

Bristol, Estados Unidos – Em junho de 2015, quase um ano antes do escândalo de abuso sexual de Larry Nassar irromper publicamente, o ex-presidente e diretor executivo da Federação Americana de Ginástica (USAG), Steve Penny, tinha uma pasta com informações detalhadas sobre a conduta de Nassar. Mesmo assim, Penny foi incapaz de tomar uma atitude que impedisse o ex-médico de fazer novas vítimas.

As informações constam no livro Start by Believing (sem tradução no Brasil), dos repórteres investigativos da ESPN Dan Murphy e John Barr, lançado na última terça-feira (14) nos Estados Unidos.

As anotações e trocas de e-mails do verão e outono de 2015 estão entre uma série de documentos e entrevistas não relatados anteriormente que ajudam a revelar até que ponto o ex-líder da USA Gymnastics e outros estavam dispostos a conter o escândalo emergente.

Esses documentos mostram que Penny sabia que Mackayla Maroney, integrante da equipe olímpica de 2012, havia dito que “não sentia efeito terapêutico, mas sentia que [Nassar] estava obtendo vantagem sexual” ao penetrá-la com os dedos em várias ocasiões.

Os advogados da USA Gymnastics, Dan Connolly e Scott Himsel, disseram a Penny que a divulgação integral destes fatos fatos acarretaria em publicidade negativa para a entidade e para o médico.

“Podemos contar a história completa do que apuramos até agora”, escreveram os advogados em um e-mail obtido pelos autores. “Acreditamos que é altamente provável que isso se torne uma história na mídia e que leve Larry aos tribunais. Nem o Dr. Nassar nem a USAG querem publicidade negativa presente no momento”.

Penny, que aguarda julgamento por acusações de violação de provas por um incidente separado relacionado ao caso Nassar, optou por permanecer em silêncio. Nassar continuou trabalhando na Universidade Estadual do Michigan, onde cometeu a maioria de seus crimes, por quase mais um ano. Dezenas de mulheres e meninas que visitaram Nassar durante esse período disseram que ele as agrediu.

Larry Nassar foi sentenciado a até 175 anos de prisão no Condado de Ingham — Foto: Brendan McDermid/Reuters

Penny sabia, por exemplo, que Maroney havia sido molestada centenas de vezes, inclusive durante competições internacionais como “o Mundial de Tóquio, em 2011, a Olimpíada de Londres, em 2012, e o Mundial da Antuérpia, em 2013”.

Em sua defesa, Penny disse que optou por não compartilhar os detalhes perturbadores sobre Nassar com a Universiade do Michigan porque o FBI o alertou para não fazer nada que pudesse impedir uma investigação em andamento.

“Esperávamos que a aplicação da lei tomasse todas as ações necessárias em relação a Nassar, inclusive removê-lo da Universidade do Michigan, se necessário”, disse.

O ex-vice-presidente do USAG, Paul Parilla, disse em um depoimento que o FBI não deu instruções específicas, apenas alertou várias vezes “para não tomar medidas que interferissem na investigação”.

“Meu coração dói por quem foi submetido a maus-tratos por Larry Nassar”, disse Penny por meio de seus advogados. “Me horroriza, à medida que mais informações são reveladas, que Nassar foi capaz de ocultar sua conduta por tanto tempo e não consigo entender por que nosso relatório ao FBI não resultou em ações mais imediatas”.

Universidade Estadual do Michigan, onde Nassar trabalhou e cometeu a maioria de seus crimes. Foto: Divulgação

Steve Penny é uma das quatro pessoas que aguardam julgamento por acusações criminais relacionadas ao caso Nassar.

Ele foi indiciado em setembro de 2018, sob a acusação de adulteração, por supostamente ter ordenado que outro funcionário removesse os arquivos médicos de Nassar do Karolyi Ranch – antigo centro de treinamento da equipe nacional de ginástica dos EUA.

Debbie Van Horn, colega de longa data de Nassar, foi indiciada em junho de 2018 por acusações de agressão sexual a uma criança. A ex-presidente da Universidade Estadual do Michigan, Lou Anna Simon, e a ex-treinadora de ginástica Kathie Klages foram acusadas de mentir à polícia.

Todos os quatro se declararam inocentes. Apenas um dos quatro casos tem uma data de julgamento agendada (o julgamento de Klages está marcado para começar em 10 de fevereiro).

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